Gestações próximas no tempo

Parentalidade | 21/10/2026

Um espaço de tempo pequeno entre duas gestações, também chamadas de gestações consecutivas, podem vir a ser fonte de preocupação para algumas mulheres. A preocupação maior é não ter tempo nem energia para cuidar dos filhos como planejaram e gostariam de cuidar. Ao mesmo tempo há casais que escolhem ter filhos com idades próximas por acreditar que há vantagem nesta organização.

A gravidez, parto e cuidados com o bebê são sabidamente processos bastante complexos e altamente exigentes. Nenhuma mulher passa por eles sem muito trabalho e desgaste. Todos eles envolvem não só o corpo da mulher, mas também um intenso trabalho psíquico.

O recomendado, do ponto de vista médico, é esperar entre 12 e 18 meses para uma nova gravidez. O retorno da ovulação pode acontecer entre 6 a 8 semanas, quando a mãe não amamenta em livre demanda e, quando o faz, entre 3 meses a 1 ano. Os músculos e pele na região abdominal levam de 6 a 12 meses para se recuperarem completamente. Os estoques de nutrientes e a elasticidade uterina se recuperam entre 12 a 18 meses pós o parto.

Mas a conta nem sempre fecha e uma nova gestação pode se adiantar. O que a situação pede é organização e planejamento além de muita calma, claro, na medida do possível.

Voltamos a enfatizar que a mulher não responde apenas à exigência física, mas também à tarefa de dividir sua atenção e trabalho psíquico entre o novo bebê que vai chegar e o filho ainda pequeno que pede atenção e diligência.

Todo cuidado é pouco. O que acontece, infelizmente com frequência, é a mulher se culpar, se considerar responsável pela nova gravidez. Até onde sabemos são necessárias pelo menos duas pessoas para estabelecer uma gestação. E pior que isso ela acusa, a si mesma, de deslealdade, negligência com ambos os filhos. Essa suposição lhe consome energia e traz sofrimento.

O ideal de perfeição, de uma maternidade tal qual aparece nas mídias da vida, não existe. Se a mulher e o homem não estão diante de uma situação considerada como ideal para cuidar e criar os filhos vão construir e inventar uma forma própria, que lhes é possível, e os filhos vão acompanhá-los, se adaptando e aprendendo a conviver na situação tal como ela é.

Nem um de nós escolhe ou não ter irmãos, essa é uma decisão que cabe aos adultos, os pais. Afinal, não nos é dado escolher sobre nosso próprio nascimento. Faz parte da vida aprender e desenvolver instrumentos para administrar as mais diferentes vicissitudes, altos e baixos, mudanças que acontecem.

Há aqueles casais que escolhem ter filhos num curto espaço de tempo. Veem nisso algumas vantagens. Filhos de idades próximas se tornam muito companheiros, brincam e se ocupam juntos. Se aproximam da situação de irmãos gêmeos, que nascem e se criam juntos. Os pais decidem que por um período de alguns anos vão ocupar grande parte do seu tempo na criação e cuidado com os filhos; passados esses primeiros anos podem voltar a se dedicar mais a outros projetos.

Uma segunda gravidez próxima a primeira exige mais cuidados, portanto a mulher, na medida do possível , deve buscar ajuda para si e para seu pequeno. O apoio do companheiro é fundamental, e espera-se que ele tenha a dimensão da exigência que a situação representa para a mulher.

As mulheres que viveram gestações próximas num primeiro momento se assustam, preferem não acreditar no resultado do exame. Mas num segundo momento começam a se preparar. Ouvindo mulheres que tiveram essa experiência, elas relatam a necessidade de manter uma rotina muito organizada, e aceitar o caos que as vezes se estabelece.

Andreia Jacoto, executiva de profissão, escreveu um livro sobre sua experiência de ter tido 4 filhos num intervalo de 2 anos. Teve primeiro uma menina, e na segunda gestação trigêmeos. Trocou o mundo corporativo, as planilhas, relatórios por fraldas, mamadeiras e diferentes dinâmicas para o funcionamento da casa. Conta que tentava organizar as mamadas para os pequenos e alimentação para a maior no mesmo horário; as sonecas e o sono da noite também todos no mesmo horário, para que ela e o marido tivessem um pouco de tempo só para eles. Tentava encontrar um momento para brincar e se ocupar apenas da maior. Os dois primeiros meses foram especialmente difíceis e desafiantes. Neste período contratou uma pessoa para ajudá-la no período da noite. A divisão de tarefas com seu companheiro, diz ela, foi fundamental. Ele também tomou para si a tarefa de cuidar dos bebês, sempre que voltava do trabalho.

Quando chegou com os bebês em casa, a primogênita não manifestou ciúmes, pelo contrário, se interessou muito pelos irmãos. Quando os pequenos completaram cinco meses, portanto já mais ativos, ela se ressentiu: voltou a pedir chupeta, que já tinha deixado, se tornou muito manhosa. Mas quando a gêmea completou dois anos passaram a brincar juntas e compartilhar muitas atividades. Mais tarde aprendeu a administrar o conflito entre as crianças, que faz parte da irmandade.

A escrita do livro é prova de que não só Andreia sobreviveu à experiência como teve tempo e disposição para compartilhá-la.

Eva Wongtschowski é psicanalista, participa das Rodas de Conversa do Gamp21 e realiza atendimento clínico.